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Os mil cariocas deitados no calçadão de Copacabana

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Creio que nesses últimos anos, em poucas ocasiões, o brasileiro pôde ver cena tão comovente quanto a que foi vista na praia de Copacabana neste último sábado. Mil cariocas tomaram a decisão de atender a um apelo em favor da paz. Toda essa gente, no meio de um feriado de páscoa, sob sol escaldante, vinda de todos os pontos do Grande Rio, decidiu se deitar, em meio a dejetos de animais, numa calçada quente, para dizer que não quer viver num Rio de Janeiro onde o sangue do carioca não vale nada – um Estado que permitiu que 1000 cidadãos seus fossem assassinados em menos de três meses.

O que esta Auschwitz representa? Em primeiro lugar, uma ameaça à democracia. Brasileiros estão começando a duvidar de que a democracia seja o melhor sistema de governo que existe. Isto porque nossa democracia é democracia sem ordem, e por isso estorva o progresso. O sistema de governo menos ruim que existe, a democracia, está sendo ameaçado no Brasil pelo menosprezo à vida e corrupção de uma geração de brasileiros incrivelmente cruéis e apáticos. Há o brasileiro perverso, que mata, corrompe e explora. Há o brasileiro gente boa, mas inerte. Brasileiro que não compreende, conforme ressaltou Edmund Burke, que, “para que o mal triunfe, é necessário apenas que os homens de bem permaneçam inativos”.

Essa crise na segurança pública expõe a nação ao perigo de uma guerra civil. Estamos dando margem ao surgimento de algo fascista, perverso, violento, antidemocrático que encontre sua justificativa na nossa desordem, insegurança e corrupção. Se, hoje, alguém parar o trânsito do Rio de Janeiro em protesto contra a violência, quem vai poder lhe dizer que ele está errado? Especialmente se essa pessoa for parente de vítima assassinada, ou pai de um garoto morto por meio dessa coisa perversa, maligna e indecente chamada bala perdida.

Mas o pior de tudo é a vida que foi ceifada. E o pai, a mãe, o filho, a filha, o irmão, a irmã, o marido, a esposa, o amigo, a amiga, que estão envelhecendo antes do tempo, após terem enterrado alguém por quem eram capazes de dar a vida e, que contudo, teve sua vida interrompida pelo crime.

Por tudo isso e muito mais, afirmo que o que houve em Copacabana neste último sábado foi grandioso. Nenhuma desordem. Famílias inteiras reunidas. O pai deitado ao lado da mãe e dos filhos. Pessoas de todas as camadas sociais. Moradores de condomínios da Barra da Tijuca e cidadãos do município de Nova Iguaçu que chegaram em três ônibus lotados. Gente idosa ao lado de adolescentes. Cidadãos cariocas completamente diferentes e unidos – estava lá o Tico dos Detonautas com sua pele cheia de tatuagem ao lado do crente pentecostal que jamais tatuaria o seu corpo. O cristão de igreja evangélica que orava enquanto permanecia deitado ao lado daquele que não se imagina dentro de um templo protestante. Parentes de vítimas ao lado de pessoas que decidiram não esperar ver um filho levar um tiro para aprender a ser gente.

Para muitos, pessoas ingênuas. Porém, ingênuos que amam e participam. Que no seu interesse pela vida não conseguem ficar em casa filosofando sobre a dor ou assistindo ao faroeste pela televisão. Homens e mulheres que, em vez de empunharem armas, causarem o caos, se insurgirem contra as autoridades constituídas pelo Estado de Direito, preferiram deitar naquele calçadão na esperança de nunca mais precisar fazê-lo. Cidadãos brasileiros que revelaram seu interesse pela justiça e capacidade de protestar de modo inteligente e pacífico.

Antônio Carlos Costa
Presidente do Rio de Paz

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