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Rio atinge a marca de 20.000 mortes violentas
Vinte "corpos" em carrinhos de supermercado circularam pela Avenida Atlântica, em Copacabana, no sábado passado. Eu vi. Foi mais uma manifestação da ONG Rio de Paz - que funciona na base da "vaquinha" e levou à orla voluntários empurrando os carrinhos com outros voluntários dentro, imitando cadáveres e reproduzindo a cena de barbárie do corpo dentro de um carrinho de supermercado, perto do Morro dos Macacos, em decorrência da guerra do tráfico, que já matou 39 pessoas em uma semana. Ainda não há nenhum sinal do responsável pela invasão da favela rival, resultando na queda de um helicóptero da PM.
Intitulada "Mercadoria barata", a manifestação teve o objetivo de protestar contra o recorde macabro que obviamente não tem nada a ver com a realização das Olimpíadas no Rio - nada menos que 20.000 mortes violentas nos últimos mil dias. Cada carrinho representava mil mortos, vítimas de homicídios dolosos, latrocínio (assalto seguido de morte), autos de resistência (mortes em confronto com a polícia) e policiais assassinados. Só para se ter ideia imagine um cemitério só com 20 mil sepulturas para toda essa gente.
O Rio de Janeiro pode não estar no ranking das dez cidades mais violentas do mundo, mas são cerca de seis mil homicídios por ano.
O protesto teve a exibição dos números no Painel da Violência, que agora é móvel, já que a prefeitura proibiu que fosse fixado na Praia de Copacabana, palco das manifestações plásticas do Rio de Paz.
Ao final da manifestação eu e o delegado Alexandre Neto - que esteve lá para apoiar o protesto - testemunhamos uma cena inusitada para um protesto contra a violência. O líder do Rio de Paz, Antonio Carlos Costa, se afastou do grupo de voluntários e foi em direção a dois sargentos do 19o BPM (Copacabana), que acompanharam todo o trajeto da manifestação. Estendeu a mão, cumprimentou e agradeceu aos dois policiais pela segurança ao evento, que transcorreu dentro do maior clima pacifista. O gesto revela que a defesa da vida e dos direitos humanos ainda pode, ao contrário do que acredita muita gente, encontrar parceiros na polícia. O Rio de Paz, a propósito, é uma das poucas ONGs que defendem abertamente direitos humanos também para os policiais. Apesar de tantas crises e críticas à polícia, não resta dúvida que não dá para fazer segurança pública sem pensar nos direitos dos agentes da lei.
Veja o vídeo feito por este repórter na manifestação, cujo principal banner, da designer Simone Villas Boas, revela como os aros olímpicos podem ser inspiradores.